Brechó de Rua

 012016 Sempre me surpreendo, quando ando pelas ruas de Zurique e vejo livros em caixas com um bilhete dizendo, “gratis pode levar”. Vejo como uma ótima ideia doar aquilo que um dia prá nós foi novo e útil e pode ter agora para outrém o mesmo significado. Por trás deste ato, acredito que esteja inconscientemente,  uma sutil cultura de dividir e partilhar.

Quando confiro se algum livro me ineteressa, tanto pra mim ou para as crianças da “daycare” onde trabalho, me vejo também tentando descobrir a quem eles pertenceram e, como seria a personalidade, interesse ou faixa etária do antigo dono. Uma sensação intrigante. Sempre encontro algo interessante, quer seja pra apronfundar meu conhecimento geral ou no mínimo aumentar meu vocabulário nos idiomas oficiais do país.

Neste mesmo bairro, onde dessa vez  escontrei esses livros da foto, fica uma loja de roupas  e acessórios usados  infanto-juvenil. A proprietária deixa sempre numa caixa na calçada  com mercadorias , que por alguma razão não tem potencial de venda. Vez ou outra, encontro também algo últil e criativo que possa usar nas  atividades com as crianças com quem trabalho.

Seja para adultos, jovens ou crianças  tenho a impressão, que esse costume de fazer das ruas um mercado aberto de livros, vai perdurar por muito tempo ainda. Falo isso,  pois sei que neste pais é o livros o objeto  preferido de se presentear na época de  Natal.

Pra semana próxima, já tenho novas ideas para desenvolver com meus alunos…

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Bruxas e Hexenschuss

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Quando falamos delas, das bruxas,  logo nos vêm as lembranças de infância e das histórias que ouvimos quando criança. Acredito que, alguns pais, prefiram contar histórias de fadas e princesas para seus filhos, com receio que seus filhos os identifiquem com os que não estão bem na cena…

Quando criança, não me lembro de me identificar com as fadas e, muito menos, com as princesas. Acho interessante, hoje trabalhando com crianças, quando ouço alguma delas, na sua maioria, se intitulando “princesa”.  Eu brincava de professora, já contei aqui e, me interessava pela vida real.

Quanto as bruxas, eu também  não me identificava com elas, elas me eram indiferentes e já estava feliz por não sentir medos delas, muitas coisas na minha infância me geravam o sentimento de medo.

Já hoje, morando na Suíça e aprendendo a me comunicar num novo idioma, ouvi essa expressão que me deixou intrigada, “Hexenschuss”. Que eu entendo como “fiscada da bruxa”.  Pode ser que uma das minhas amigas poliglotas, depois de ler esse post, achem uma explicação melhor e me corrijam.

Ouvi essa expressão pela primeira vez, quando me mudei de apartamento e no estresse da mudança e no meio de caixas junto com provas finais do curso de pós-graduação,  morri de dor nas minhas costas e, não entedia o que poderia ser essa dor terrível.  Achei até que tinha machucado gravemente minhas costas e, na época, chamei  até um médico de emergência.

“Hexenschuss”, a fisgada dela me atingiu de novo. Mesmo depois de um ano estar treinando meus músculos, também os das costas, mas parece que não o suficiente. Agora com fisioterapeuta estou eu treinando minha paciência e tentando mandar essa dor, que chega a dar medo, de volta de onde ela veio, prás bruxas. Interessante é que quando comento da minha dor, ouço com frequência, que não sou a única. Parece que a bruxa está solta mesmo por aqui…

Ah! Quanto a bruxa da foto. Sou eu numa semana de férias na “daycare”, quando tivemos o tema “Halloween” e organizei um tarde de filme para as crianças. Escolhi o filme de uma montagem para teatro exibida em Zurique ” A bruxinha boa” de Otfried Preussler (Die kleine Hexe).  Apareci assim para as crianças e elas tinham que adivinhar o nome do filme. Isso foi fácil e o dia bem divertido. Quanto a dor, bem difícil, nada sério mas que estou cuidando.

Desejo boa sorte!!

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Essa semana foi a tão esperada semana de prova. Durante todo o ano meu estagiário se preparou para esses três dias de prova final, para então, poder receber o título de “especialista em puericultura  ou cuidados infantil”. Na verdade foram três anos de estudo.  Já há quatro anos esse rapaz, hoje com dezenove anos, está neste “daycare” onde trabalho. No primeiro ano ele trabalhou, sempre com remuneração é claro,  como aspirante num grupo de bebês, com mais uma estagiária, que já estava frequentando o seu curso almejado e, duas profissionais da área. Passado um ano ele teve a certeza que estava na profissão certa e se candidatou a uma vaga numa escola de especialização. Como já estava empregado, foi aceito pela escola e pôde começar seus estudos, com duração de três anos. O seu primeiro ano na escola, onde frequentava as aulas às quintas-ferias a tarde e às sextas-feiras nos períodos da manhã e da tarde, ele trabalhou num grupo de crianças com 2 a 5 anos de idade. Desde ano passado ele está conosco, no grupo onde sou gestora. Esse grupo tem de cerca de 36 alunos de 6 a 16 anos (alguns só frequentam meu grupo para o almoço, com nossa orientação e onde recebem alimentos balanceados preparados por uma cozinheira profissional). Foram dois anos bem exaustivos, principalmente esse  último, quando estamos com um grupo numeroso e com algumas crianças bem exigentes. Ainda temos uns meses pela frente até julho quando finaliza o ano letivo.

É comum, quando nossos estagiários passam pela prova na “daycare”, onde são avaliados pela orientadora do estágio e por uma especialista externa, que preparemos para eles um placar de boa sorte. Esse cartaz fica na sala, onde ele tem seu lap top e escreverá sua reflexões que fará sobre as tarefas que realizará  com as crianças durante sua prova. Parabéns meu aprendiz, você fez um bom trabalho e vai merecer seu título. Nós vencemos, depois de tanta luta. Logo vamos poder comemorar. Sucesso na sua carreira e boa sorte sempre…

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Flores de papel

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Mais uma curiosa experiência com as crianças. Em fevereiro as crianças na Suíça possuem duas semanas de férias, as chamadas Férias de Esporte de Inverno (quando as escolas organizam acampamentos para esquiar nas montanhas). Na “daycare” onde trabalho organizamos atividades educativas para as crianças menores e para aquelas, que por alguma razão, não foram a um acampamento. No período da tarde precisaram da minha ajuda profissional num grupo de crianças pré escolar e, lá fui eu.

Para pausa depois do almoço sugiro pintar e desenhar com elas e logo consigo adeptos. Cada um pode fazer sozinho, explico, desenhando numa folha de papel o contorno da minha e mão e pintando, elas observam atentas. Depois que recorto e monto a flor com suas pétalas encurvadas, quatro crianças confirmam a participação na atividade, entre elas um menino. Cerca de uma hora precisamos para finalizar, sempre recebendo elogios daqueles que entram na sala e se expressam reconhecendo nossos esforços. Dirijo-me a sala ao lado, onde percebo uma movimentação. Quatro crianças querem fazer uma apresentação de circo, mas não entram num acordo entre si. Procuro ajudá-las mas não tenho sucesso – A ideia de uma apresentação teatral no grupo me agrada, pois durante o período de aula quase não sobra tempo para esse tipo de atividade, que requer mais tempo para se concretizar. Sugiro então, outros pares para a atividade e elas se recusam. Estou quase desistindo e querendo dar uma última chance, sugiro eu mesmo me apresentar. Imediatamente elas aceitam e, essa reação dessas crianças de personalidade tão marcante me surpreende, elas já pareciam tão seguras na decisão de não mais participarem.

Uii!! Agora sou “eu e mais eu” em cena e, não se esqueçam, preciso improvisar e mais, em alemão!!! Respiro fundo e, já observo uma colega Suíça sentada na platéia. Você acha que estou exagerando? Levo tudo muito a sério na minha vida….vamos lá!!!

Rapidinho e urgente preciso de um tema e de personagens. Lembro-me das flores recém produzidas e, da necessidade de tematizar essa dificuldade que essa crianças demonstraram em trabalhar e brincar em grupo. Ok, já tenho tudo que preciso. Lá vou eu para atrás das cortinas preparadas por elas que agora são minhas expectadores.

Uma delas sugere uma música de fundo. Ao som de Lady Gaga está tudo pronto e entra em cena uma florzinha. Triste por estar sozinha e não ter ninguém para brincar, as crianças a ajudam a chamar outra florzinha para brincar com ela. Agora em duas já é  melhor. Mas como brincar de pular corda só em duas ? Mais uma florzinha se aproxima e tudo fica bem melhor. Agora em três podem juntas se divertirem de montão e brincar com muito mais opções legais… Ufa, acho que agradei… Recebo aplausos e, para minha surpresa, até abraços das crianças com elogios verbais expressando que fiz uma boa apresentação. Encantadoras!!! Adorei mais essa experiência e, dessa vez, parece que tive sorte!!!

Bilinguismo: Crianças brasileiras residentes no exterior

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Minha  experiência com crianças bilíngues em projetos na Suíça e Alemanha mostra que as crianças brasileiras, mesmo com pouco tempo vivendo na Europa, já conseguem e, até com certa facilidade, rapidamente se relacionar com o mundo social usando o idioma estrangeiro. Isso é positivo e decorre de uma vantagem natural que as crianças possuem. Na infância a criança está propícia e sensível a aprender mais facilmente um segundo idioma, até sem sotaque. Como nós pedagogos, profissionais em educação, costumamos dizer: “Quanto mais cedo melhor para se aprender um novo idioma”. Essa situação privilegiada contribui para que as crianças desde a tenra idade possam crescer bilíngues.

No momento que a criança está aprendendo  um novo idioma, ela está também aumentando sua cultura e acumulando novas ideias, informações, costumes e valores morais como percebendo também, as diferentes formas de organizar suas experiências para um aperfeiçoamento da qualidade de seus  relacionamentos interpessoais.

Gosto de dizer que, a pessoa bilíngue, assume o papel de ponte entre duas culturas. Considero que a língua não seja só uma voz avulsa de um país, mas constitui a expressão de identidade do seu povo, a sua riqueza cultural e espiritual.

Dentro da família, vejo as crianças sendo também uma ponte entre gerações, facilitando o relacionamento com os avós, parentes ou até mesmo na comunidade onde vive.

Vejo que as crianças bilingues apresentam vantagens no pensar, pois elas possuem uma ou mais palavras para cada objeto ou ideia. Esse aspecto favorece indiscutivelmente o desenvolvimento cognitivo (do conhecimento) dessas crianças.

Além dessas vantagens cognitivas, sociais e culturais existe também vantagens econômicas em ser bilíngues – maiores oportunidades no mercado de trabalho. É sabido que profissionalmente as pessoas levam vantagens por dominar vários idiomas. Vejo cada vez mais jovens, que por dominarem bem o português, tanto na língua falada como na escrita, apresentam vantagens na aprendizagem e domínio de outros idiomas latinos daqui da Europa como o espanhol, italiano e francês por exemplo.

Mas minha experência ainda mostra que, infelizmente, essa situação particular de poder crescer bilíngue em um outro país que não seja o da sua língua materna, não é tão inofensiva quanto parece.

A criança bilingue e bicultural necessita de um ambiente coerente e facilitador para que possa diferenciar e isolar no seu pensamento os dois idiomas em questão (português e alemão, por exemplo) e, consequentemente as estruturas gramaticais de cada língua. Vejo que, quanto maior o domínio da língua materna, maiores chances de sucesso a criança apresenta na aprendizagem da língua estrangeira ou do segundo idioma. Vejo ainda que, só o fato de uma criança falar o português em casa não seja suficiente. Não queremos que nossas crianças cresçam bilíngues mas monoculturais. Minha experiência nestes 20 anos de trabalho na Europa com crianças estrangeiras, confirma que, diversas crianças brasileiras por exemplo, até falam português, mas muitas vezes só conhecem a cultura e costumes do país onde se interrelacionam, onde vivem, tendo só o país onde reside como referência. Isso é uma pena….

O desenvolvimento bicultural de uma criança requer muito tempo e dedicação da família e de nós educadores. Precisamos muitas vezes convencer os pais a inserir seus filhos também no universo cultural do país de origem deles ou no de sua família. Cabe aos pais o dever de oferecer a essas crianças diferentes oportunidades de vivenciar essa cultura, proporcionando o contato delas com diversos materiais como brinquedos, livros, revistas, gibis, músicas e filmes infantis. Devem proporcionar também maior interação nessa cultura como, exposições, teatros, encontros festivais culturais ou religiosos, concertos, danças e ainda, se possível, viagens periódicas ao Brasil. De grande ajuda também, são, sem dúvida os cursos de Língua e Cultura do Brasil existentes em vários países da Europa. Aqui na Suíça, em Zurique, por exemplo, esses cursos são monitorados em mais de 17 idiomas desde os anos noventa (HSK, a sigla em alemão – Heimatliche Sprache und Kultur). Tais cursos são reconhecidos e apoiados pelo governo local. Já em Berlim, na Alemanha por exemplo, os cursos contam com a participação e interação dos pais nas aulas semanais.

O sucesso de qualquer curso, na minha opinião, depende da satisfação e prazer do aluno em frequentar e participar interagindo nas aulas.

Através dessa interação e troca de experiências com outras pessoas e educadores brasileiros, num ambiente elaborado, motivador e atraente, as crianças deverão ser estimuladas por situações de aprendizagem para o domínio e aperfeiçoamento da língua materna, tanto na linguagem oral como escrita. Aprender um idioma deve ser um processo prazeroso e natural decorrente da curiosidade de cada um.

Nossa tarefa como pais e educadores deve ser o de facilitador, incentivando de uma forma lúdica, variadas atividades em ambas as culturas e, nunca impondo uma cultura sobre a outra.

Sugiro também que em casa, os pais procurem se comunicar utilizando o idioma materno. Caso tenha mais de um, deve optar por aquele que mais domina e que consiga transmitir com mais facilidade e autenticidade afeto e palavras carinhosas. Assim, os pais terão um relacionamento mais íntimo e saudável com seus filhos procurando transmitir experiências do seu passado e vivências positivas de sua história pessoal.

Minha experiência também mostra que, a integração de uma criança numa nova cultura e sociedade acontece com sucesso e, será garantida, quando houver uma integração prévia dessa criança na sua cultura de origem.

Digo sempre que: Só sabemos com clareza para onde vamos quando sabemos de onde viemos!!!! Fica aqui a dica também para nós adultos, que vivemos fora da nossa Terra Natal.
Um desafio para todos nós.

Minha história

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Filha de uma professora e de um funcionário público, caçula de três filhos nascidos no século passado. A infância passei entre Campinas, Americana e Piracicaba, cidades do interior do Estado de São Paulo. Hoje acredito, que o fato de ter frequentado uma escola por apenas três meses na infância, tenha me fortalecido e ajudado a conseguir sobreviver por mais de vinte anos como expatriada.

Parando para analisar minha história parece que nunca pude criar raízes profundas mesmo. Fui batizada em Valinhos, crismada em Campinas, fiz a primeira comunhão em Piracicaba e me casei na Suíça. Nada convencional para uma descendente de italianos do norte da Itália. Com bisavós nascidos nas cidades de Mantova e Pádova, cidades que já visitei, lembro-me de ouvir histórias sobre a noninha e de minha avó soltando expressões em italiano. Sem falar a culinária e a cultura da mesa, onde aos domingos minha avó fazia questão de fazer ela mesma a massa de macarão rodeada pelos filhos e netos.

Minha mãe ainda sempre relembra o tempo que seus pais tinham padaria e uma pensão em Campinas. Revelou que meu pai era amigo de meus tios e frequentava a pensão. Ele se encantou com a beleza da irmã dos amigos, a filha mais nova da família Poletto. Meus pais se casaram novos, minha mãe tinha dezessete anos . Ela tinha dezenove quando deu à luz ao meu irmão mais velho, que precisava ser amamentado nos intervalos das aulas, quando ela ainda cursava magistério na antiga Escola Normal de Campinas.

Já a família do meu pai é em sua maioria de professores e diretores escolares, profissões essas que acredito ter influenciado a escolha da minha. Está no sangue mesmo. Lembro-me de sentar as minhas bonecas e brincar de “escolinha”. A lousa poderia ser uma porta velha ou mesmo aquelas pequenas verde ou preta, que vinha acompanhada de um apagador para giz de cal.

Anos passaram e lá estava eu, estudando na Antiga Escola Normal de Campinas, na Escola Estadual Carlos Gomes. Adorava o meu curso matutino com uma classe só de mulheres. Durante a tarde fazia estágio obrigatório e, no último dos quatro anos de curso, me especializei como professora Pré-Escolar. No período noturno, eu frequentava o primeiro ano do curso de Pedagogia no famoso prédio central da PUC-Campinas. Foi interessante pra mim esse ano de 1983. Terceiro grau pela manhã e a noite vivenciando um curso universitário. A moça está amadurecendo…

Pré-escolas pequenas como primeiro emprego, estava toda orgulhosa de ser a mais nova da família e a primeira a ter uma profissão. Mas, eu queria mais!

Consegui uma classe na Escola São Paulo na antiga Fazenda Holambra perto de Jaquariuna. HOLAMBRA com status de município desde 1991 e hoje conhecida como a Cidade das Flores. Escola esta de descendentes de holandeses. Esse seria o meu primeiro contato mais intenso com estrangeiros e a oportunidade de conhecer uma nova cultura. Totalmente urbana, meus alunos de cinco anos me ajudaram a plantar a minha primeira árvore. Aprendi com eles a ter uma nova relação com a natureza  e com a chuva. Ganhava lindas mini-violetas deles. Em setembro ficava por lá para o fim de semana e poder participar da Expoflora, a conhecida Festa das Flores. Dançava a danças folclóricas com eles, quando convidavam o público a participar da festa. Numa visita a mini-fazenda nesta festa, fui abordada por um organizador de rodeios e Festa de Peão da região. Uma nova fase se iniciava na minha vida.

De volta a Campinas, comecei a lecionar os dois períodos em duas diferentes escolas particulares e, aos fins de semana, fazia locução em rodeios e Festa de Peão pela região. Festas rendosas essas, entrevistas que me fizeram investir nas minhas veias artísticas. Produzi uma logo-marca “Lucia Entrevistas em Vídeo” com cartão de visitas e acompanhada de um câmera-man entrevistava os convidados  em festas de casamento, de aniversário e bailes de quinze anos. Foi um sucesso essa nova experiência, consolidando uma grande frustração pela falta de reconhecimento e baixa remuneração que nós professores possuímos no Brasil.

Os fins de semana estavam garantidos então continuei lecionando só no período da manhã e busquei novos horizontes para o período da tarde. Abrindo um jornal da cidade, vi nos classificados, uma vaga de recepcionista no primeiro Apart-Hotel de Campinas, ela era minha. Como neste Apart-Hotel o movimento de executivos estrangeiros era maior durante a semana, recebia ajuda do meu chefe no meu inglês enferrujado. Resolvi então, contratar uma professora particular de inglês para sair do sufoco nos fins de semana, quando ficava sozinha na recepção. Esse Apart-Hotel fica localizado no Largo do Pará, Largo esse, que ainda faz parte da minha história recente (ponto dos ônibus que nos levam aos aeroportos mais próximos). Depois de mais um mês de aula, minha professora de inglês me questiona se eu conhecia a Europa e se não gostaria de conhecer a Alemanha. Sua irmã estaria lá cuidando de crianças. Eu poderia trabalhar lá como Au-Pair. Como assim??? Que história seria essa???

A Alemanha parece ter sempre estado presente na minha vida. Ouvia meus pais contarem que, antes de eu nascer, eles tiveram vizinhos alemães. Senhor Richard trabalhou na Bosch de Campinas e Dona Berta, encantava a todos do bairro com sua simpatia e extravagancia com seus vestidos de alça, novidade nos anos 60 no interior de São Paulo – numas férias de inverno meu pai, por ter ainda tantas boas lembranças desses amigos alemães, me convidara fazer um curso intensivo de alemão com ele, idioma com o qual eu me simpatizei já de início…

Aceitei a orientação da minha agora ex-professora de inglês e fui me informar como fazer para trabalhar como Au-Pair na Alemanha. Em casa, essa vontade minha, mexeu com meus pais e suas boas recordações dos amigos de Bexbach….

Na rede particular de ensino é possível, depois de cinco anos de casa, conseguir uma licença não remunerada por até um ano. Usufruí dessa condição e,  depois de três anos juntando dinheiro, parti rumo a Frankfurt.  Nestes três anos de espera, havia conseguido uma carta convite para trabalhar numa casa de família com crianças, mas meu visto, infelizmente, foi negado. Eu já estava “velha” para ser Au Pair. Então resolvi ir passear. Na Alemanha fiquei por três meses com esses amigos da família e foi tudo um sonho bom. A minha sensação era estar dentro daqueles filmes que assistíamos no curso de alemão que fiz com meu pai na escola Hans Staden de Campinas. Foi lindo!

Senhor Richard, na primeira semana, relembrou o passado mostrando os slides e filmes de meus pais e meus irmãos quando eram crianças. Contava as aventuras de meu pai e seu empenho em ajudá-lo a tirar a carteira de motorista brasileira. Dona Berta, muito simpática e atenciosa, ainda hoje quando fala comigo ao telefone, relembra os lindos dez anos que morou em Campinas, confirmando ser os anos mais felizes de sua vida. Sua filha Elizabeth, junto com o seu marido foi que me trouxe a Suíça para a casa da D. Joana, onde eu ficaria por alguns meses e teria a possibilidade de frequentar um curso de alemão (um dos quatro idiomas oficiais da Suíça).

Em Zurique através do neto de Dona Joana, conheci estudantes universitários suíços-brasileiros e fui encorajada a me matricular no curso de pedagogia. Convidada pela diretora do Instituto Cultural Brasileiro de Zurique trabalharei num projeto piloto de Língua e Cultura brasileira para crianças biculturais. Um projeto novo para a Suíça e para mim.

Com a posse do passaporte italiano, vi a possibilidade de montar esse curso na capital da Alemanha. Resolvi me mudar para Berlim e, junto com um amigo também pedagogo, montei um curso também semanal de Língua e Cultura do Brasil para crianças bilíngues agora na Alemanha. Mas parece que meu destino era mesmo a Suíça.

Fui chamada por um casal para cuidar novamente de uma adolescente de quinze anos. A mãe iria acompanhar o novo marido, que era fotógrafo de uma firma famosa de máquinas fotográficas, em mais uma viagem que faria a Nova Zelândia e sua filha ficaria na Suíça na companhia de uma pedagoga, euzinha. Era verão e, numa festa de rua e através de amigos em comum, conheço Thomas e logo nos apaixonamos. Volto definitivamente a Suíça e agora para me casar!

A legalização novamente neste país me garante a possibilidade de me candidatar a uma vaga de Pedagoga Auxiliar numa escola em um município próximo a Zurique. Trabalho numa “daycare” da prefeitura desde 1999, quando me casei. Nestes mais de vinte anos como pedagoga somei e estou somando ainda hoje experiências e vivências na minha profissão, que vou dividir com vocês neste blog.

Aguardem!